Corremos o risco de sermos enterrados vivos?

Tafofobia. Esse é o nome científico da fobia de ser enterrado vivo. Antes do século XX, eram comuns registros de pessoas enterradas antes de morrer. Isso porque os métodos de verificação de “oficialmente morto” não eram lá tão confiáveis. Olha só:

– Enfiar agulhas debaixo das unhas dos pés, no coração ou na barriga;

– Cortar os pés com facas ou queimá-los com ferro quente;

– Enemas de fumaça para vítimas de afogamento – alguém “soprava fumaça no seu ânus” para ver se você se aqueceria e começaria respirar;

E meu favorito:

– Escrever “Eu morri mesmo” com tinta invisível (feita com acetato de chumbo) em um pedaço de papel e levar o  papel até o rosto do cadáver. De acordo com o inventor desse método, se o corpo estivesse em putrefação, haveria emissão de dióxido de enxofre, fazendo com que a mensagem se revelasse. Infelizmente, o dióxido de enxofre também pode ser exalado por pessoas vivas, como alguém com dentes podres. Portanto, é possível que tenha havido alguns falsos positivos.

Se você acordasse, respirasse ou reagisse de forma visível a esses testes – aleluia! –, estava vivo. Mas podia estar ferido. E aquela agulha enfiada no seu coração poderia te matar.

Tempos modernos

Atualmente, vemos na TV ou nos jornais os termos ‘coma’ e ‘morte cerebral’, como se fossem sinônimos ou certezas de morte. Não é bem assim.

Entre as duas, o que você não iria querer é o estado de morte cerebral. Uma vez nesse estado, não há volta. Além de perder todas as funções cerebrais superiores, que são responsáveis por suas lembranças e comportamentos e permitem que você pense e fale, você também perde todas as coisas involuntárias que a parte inferior do seu cérebro faz para manter as pessoas vivas, como controlar o coração, a respiração, o sistema nervoso, a temperatura e os reflexos.  Uma pessoa em estado de morte cerebral tem essas funções executadas por equipamentos de hospital, como respiradores e cateteres.

Quando está em coma, por outro lado, você está legalmente vivo. No coma, ainda há funcionamento cerebral, que a equipe médica pode avaliar pela observação da atividade elétrica e pela reação a estímulos externos. É possível se recuperar de um coma e voltar à consciência.

Tudo bem, mas e se o coma for muito, muito profundo? Alguém pode acabar desligando os aparelhos e me mandando para o necrotério?

Não!  Existe uma bateria inteira de testes científicos para confirmar que uma pessoa não está só em coma, mas em verdadeiro estado de morte cerebral. Esses testes incluem:

– Verificar se as pupilas estão reativas. Quando uma luz forte é apontada para os olhos, elas se contraem? Os olhos das pessoas em morte cerebral não fazem nada.

– Testar seu reflexo de engasgo. Seu tubo de respiração pode ser enfiado e retirado da garganta para ver se você engasga. Pessoas mortas não engasgam.

– Injetar água gelada no seu canal auditivo. Se fizerem isso com você e seus olhos não virarem rapidamente de um lado para outro, a coisa não está boa.

– Um EEG, ou eletroencefalograma, o teste do tudo ou nada. Ou há atividade elétrica no seu cérebro ou não há. Cérebros mortos têm zero atividade elétrica.

– Administrar atropina IV. Os batimentos do coração de um paciente com vida aceleram, mas os de um paciente com morte cerebral não mudam.

Uma pessoa precisa falhar em muitos desses testes para ser declarada em estado de morte cerebral. E mais de um médico precisa confirmar essa morte cerebral. Só depois de incontáveis testes e um exame físico detalhado é que se vai de ‘paciente em coma’ a ‘paciente em estado de morte cerebral’. Atualmente, não é só um cara com uma agulha em cima do coração e ‘eu morri mesmo’ num pedaço de papel.

É muito improvável que seu cérebro vivo passe despercebido e você seja levado do hospital estando em coma. Mesmo que acontecesse, nenhum responsável por uma funerária ou legista é incapaz de diferencias uma pessoa viva de um cadáver. Posso garantir: pessoas mortas estão bem mortas de uma forma bem previsível.

Extraído do livro: “Verdades do Além Túmulo”, de Caitlin Doughty (Ed. Darkside Books, 2020)

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