MORTE E COISAS

“Acumular é viver como se você não fosse morrer.” O ator e comediante Robert Wringham te joga no novo ano, examinando a relação entre minimalismo e boa morte

Este artigo é a segunda coisa que escrevo hoje. A outra foi meu testamento.

Depois de conhecer Caitlin e devorar seu trabalho, decidi aceitar minha decomposição pendente. Por mais que eu queira viver para sempre, oscilando entre o Big Bang e o Big Crunch em um eterno jogo de pingue-pongue, obviamente não vai acontecer.

Eu escrevi um testamento como parte dessa jornada de aceitação, mas também o escrevi porque sou minimalista e me sinto estranhamente responsável pelo destino das minhas coisas. Uma década de purgação e vigilância contra o acúmulo me deu um grande senso de responsabilidade, até mesmo afeto, pelas poucas coisas que possuo. Ao aceitar a morte, o primeiro pensamento foi o que acontecerá com as minhas coisas? mas, claro, eu já sabia a resposta e estava me preparando para ela, por meio do minimalismo, o tempo todo.

Todas as suas coisas – assim como você, senhora – são destinadas para aterros sanitários. É um fato da morte que nossas posses antes preciosas serão descartadas sem cerimônia. Seus livros de ficção científica não serão gentilmente escoltados até a Biblioteca do Congresso e engavetados com uma pequena placa com seu nome. Sua coleção de discos não será selada na tumba com você. Você não é Tutankhamon. Você nem mesmo é Nefertiti.

É improvável que nossas coisam sejam usadas ou valorizadas por descendentes. Eles vão vê-las como um incômodo e vão querer se livrar delas o mais rápido possível porque eles já têm muitas coisas sem herdar as nossas. Eles provavelmente vão lidar com parte delas afetuosamente e dizer “vovó bobinha”, antes de doá-las, vendê-las em um grande lote no Mercado Livre ou jogá-las em uma lixeira.

Talvez você não se importe com o que deixa para trás ou com o estado em que deixa o mundo depois de morto. Ter pessoas limpando depois de você enquanto você aperta a mão de Elvis pode ser uma prerrogativa de todos os humanos, uma forma de cuidado paliativo a que todos temos direito. Mas, para mim, parece mesquinho dificultar as coisas para as fadas da lavanderia, deixando-as com o maior esconderijo possível de lixo para resolver. Deve ser visto como constrangedor morrer com tantas coisas em sua posse: é o “desculpe, não arrumei antes de você chegar” vezes um milhão.

Objetos inanimados não irão, de forma significativa, sobreviver a nós. Demorei um pouco para perceber, mas o minimalismo está fortemente ligado à aceitação da morte. Aquisição é a negação da morte. Adquirir é fortalecer-se, expandir-se, tornar-se imóvel, intransponível. Acumular é viver como se você não fosse morrer. Ter uma casa cheia de coisas, um depósito cheio de mais coisas e um quarto na casa da sua mãe também cheio de suas coisas é viver como se você tivesse uma eternidade para resolver tudo ou usar tudo. Nós não.

Os negadores da morte, aqueles que não se conformam com sua gloriosa finidade, também gastarão tempo e dinheiro em poções juvenis, intermináveis distrações da mortalidade. Eles valorizam suas chamadas peças de investimento, sentados em sua pilha de lixo de riqueza percebida como um dragão CGI dublado por Benedict Cumberbatch. Aqueles que realmente aceitam a morte sabem que não precisam de nada disso e vivem com leviandade, entendendo que nenhuma quantidade de coisas físicas cancelará seu encontro com Bowie.

Aceite a morte, prepare-se para ela e, ao fazê-lo, prossiga com a vida. Uma boa maneira de fazer isso é reduzir suas coisas e não substituí-las. Então, você pode começar a ter experiências reais em vez de comprar e empilhar coisas umas sobre as outras. Esse tipo de purgação também respeita as suas coisas: você pode dizer adeus a cada objeto adequadamente enquanto ainda está vivo, em vez de deixá-lo enlutado.

Os benefícios do minimalismo não podem ser exagerados. É bom para o meio ambiente (redução sendo o mais negligenciado dos “três Rs” e o único que realmente importa), para a estética, sua saúde, seu bem-estar mental, seu modo de vida e sua carteira. E, como aprendi recentemente, não é bom apenas para sua vida, mas também para sua morte.

Estou indo visitar alguns amigos agora para que eles testemunhem a assinatura do meu testamento. Eles também são minimalistas, então ficarão encantados quando eu tocar a campainha, brandindo a papelada confirmando que não vou deixar nada para eles.

Feliz Ano Novo!

Adaptação de conteúdo publicado no blog The Order of the Good Death. Leia o original, em inglês, aqui.

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