Famortos: Brás Cubas

A morte liberta. Essa foi a impressão que eu tive quando li Memórias Póstumas de Brás Cubas pela primeira vez. Ao narrar a sua história, o falecido finalmente se desprende de qualquer etiqueta e critica irônica e diretamente quem bem entender. Afinal, que consequências pode sofrer se já está morto

A morte também pode te definir. “(…) eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor (…)”. Ironicamente, este é o único título que Brás Cubas recebe, já que falhou na vida: “Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento.”

De acordo com Walter Benjamin, é da morte se são construídas as histórias. À época, Machado de Assis demonstra uma interpretação inovadora sobre o ser humano, fazendo com que seus leitores busquem questionar o mundo a sua volta. É da morte que resulta a possibilidade de uma interpretação mais integral do que seja o homem.

Para Maurice Blanchot, a morte é o “lado da vida que não está voltado para nós nem é iluminado por nós” e que reside nos dois reinos (a vida e a morte). Ao mesmo tempo a obra de Machado de Assis nos revela um homem que conta sua vida após a morte. Ou seja, a essência/sentido da vida só é revelada depois que morre.

A vida de Brás Cubas foi inútil. Ele mesmo reconhece que nunca sequer precisou trabalhar para comprar o próprio pão com seu suor. Sua vida foi repleta de derrotas, decepções e tragédias. Enquanto vivo não dizia tudo que pensava, mas morto se revela um grande cretino.

Sem entrar em discussões sobre a índole do protagonista, a visão que tive ao terminar o livro foi a de que não teremos a mesma ‘sorte’ de Brás em poder contar nossas histórias do além. Ao evitar abordar a morte como parte da vida, corremos o risco de sermos mal interpretados quando partirmos.

“Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem.”

Segundo Marli Fantini Scarpelli, para Brás, “Saber que se morre, viver a experiência da morte, não ter ilusões é o lúdico exercício da recriação ficcional da vida por meio do qual o ‘defunto autor’ aprende a desfolhar a ‘flor amarela da hipocondria’ para burlar a morte e a melancolia”. Como disse o próprio Brás Cubas:

Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e não nos examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento.

Percebe-se que a morte é bem provavelmente a ideia principal do livro, que atravessa de ponta a ponta, do título ao capítulo final. Por causa da falta de otimismo na vida, desenvolvem-se traições, jogos de interesses, o emplasto (principal motivo da morte do protagonista). Cada frustração leva ao pensamento de que nada vale a pena, de que resta somente uma esperança e um fim, a da morte, que é a única certeza de todos. Mais do que isso, ela é um fio condutor da história, quase uma personagem, pois afeta diversas personagens, revela a verdadeira personalidade e os interesses, faz mudar pensamentos, funciona como castigo ou como libertação para uma vida carregada de sofrimentos. Tudo isso faz com que esse tema tão marcante nessa obra se apresente de forma tão enigmática, intrigante e magistral.

Para a crítica moderna especializada, Memórias Póstumas de Brás Cubas é um dos livros mais inovadores de toda a literatura brasileira.

Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908) é um dos maiores representantes da literatura brasileira. O escritor foi o responsável por inaugurar o Realismo no Brasil, que teve como marco inicial a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, publicada em 1881.

Machado deixou um conjunto vasto de obras. Foi contista, cronista, jornalista, poeta e teatrólogo, além do que é o fundador da cadeira n.º 23 da Academia Brasileira de Letras.

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