A história do Dia de Todos os Santos, que quase morreu com o Halloween

Gostosuras e travessuras, bruxas e santos, celtas e americanos. Esta semana celebra-se a vida e a morte. O que têm o Halloween e Todos os Santos em comum? Uma linha tênue entre a Terra e o Além.

Para chegarmos à implementação do Dia de Todos os Santos é preciso voltar no tempo dos celtas. Este povo celebrava o início do inverno com dois objetivos: apaziguar os poderes do outro mundo – isto é, as forças do Além, onde estariam as almas dos mortos – e pedir a abundância nas colheitas futuras.

Quem o explica é o padre Anselmo Borges, teólogo e professor da Universidade de Coimbra. Nesta festa, a Samhain, os celtas recordavam os antepassados “concentrando o sagrado num tempo e lugar determinados”. Depois acendiam o “primeiro fogo”, que tinha um outro significado: a vida.

O Samhain era celebrado na chegada do inverno, quando a natureza parecia estar “adormecida”. À época, os celtas usavam um calendário lunar que dividia o ano em duas épocas, quente e fria. Depois de tempos de fertilidade, era hora de manter a esperança em boas colheitas. Como? Acendendo a tal fogueira, contrariando o ambiente sombrio da noite que chegava cedo, organizando verdadeiros banquetes e bebendo “até perder a razão”, como descreve o padre Anselmo Borges. Era o réveillon da fé celta.

Este tipo de celebração não era, ainda assim, exclusivo dos celtas: também os romanos organizavam os saturnais, que funcionavam como uma passagem de ano espiritual, com grandes festas com muita comida e diversão.

O Dia de Todos os Santos nasceu quando Gregório IV estava em frente à Igreja Católica.

Estávamos no ano 835 d.C.. O processo de Cristianização continuava através da proliferação dos ensinamentos da Bíblia. Foi por isso que o Papa Gregório IV escolheu o dia 1 de novembro para celebrar todos aqueles que morreram com “uma vida plenamente realizada, que são exemplos de vida e estão na glória de Deus”. Neste dia, acredita-se que a fronteira entre a vida na Terra e a vida divina estava enfraquecida e portanto podia haver “contato entre os vivos e os mortos”.

Este é um capítulo da história, mas a criação do Dia de Todos os Santos também juntou o útil ao agradável. De acordo com a explicação do padre Anselmo Borges, os cristãos já celebravam os mártires, aqueles que celebravam até à morte a obra e a palavra de Jesus, no século II. A Igreja Católica festejava a vida de um santo em cada dia do ano e este era um modo de venerar aqueles que “intercediam a Jesus pelos humanos”. A certa altura, o número de santos aumentou (em consequência da perseguição dos romanos) e então foi necessário criar um dia em que se celebrassem todos eles.

Halloween: um Dia de Todos os Santos “made in USA”

Hoje, o Dia de Todos os Santos está influenciado por um fenômeno americano cuja celebração atravessou o Oceano. O Halloween tem uma origem semelhante à festividade católica e surgiu nos Estados Unidos também por via dos celtas, ou seja, depois da emigração em massa dos irlandeses, povo de origem celta, para o continente americano no século XIX. Mas aqui, a festa ganhou outro cunho: a crença de que a barreira entre vivos e mortos está mais vulnerável nesse dia levou os americanos a procurar celebrar o contato com forças sobrenaturais negativas, mais sombrias, misteriosas e maléficas.

Na noite de 31 de outubro para 1 de novembro, as crianças americanas se vestem de bruxas, fantasmas ou zumbis e também tocam à campainha dos vizinhos em busca de doces. Dizem “gostosura ou travessura” e os vizinhos decidem se abrem a porta. Mas se decidem não abrir, correm o risco de encontrar ovos atirados contra a janela na manhã seguinte. Para se entender melhor a relação evidente entre o Halloween e o Dia de Todos os Santos, basta olhar para a origem da palavra: Halloween vem da expressão All Hallows Eve, isto é, Véspera de Todos os Santos.

É também dos celtas que as celebrações do Halloween herdaram o típico jogo americano em que as pessoas tentam apanhar só com os dentes uma maçã dentro de uma bacia cheia de água. Antigamente, os celtas acreditavam que o contato com as entidades divinas podia ajudá-los a entender o futuro e usavam esse jogo para tentar adivinhar com quem iriam casar.

E o Dia dos Finados?

Mas a festa não acaba aqui: em 2 de novembro ainda é dia de celebrar a vida e a morte. Apesar de as pessoas aproveitarem o antigo feriado do dia 1º ou o domingo mais próximo a este dia para homenagear os entes queridos que já partiram, o Dia dos Finados é oficialmente no 2. Com uma pequena diferença: é que os finados são aqueles que estão no purgatório à espera de julgamento antes de chegarem ao céu. Esta celebração foi implementada pelos monges de Cluny, da França, no século IX. A New Catholic Encyclopedia afirma que “durante toda a Idade Média era popular a crença de que, nesse dia, as almas no purgatório podiam aparecer em forma de fogo-fátuo, bruxa ou sapo”.

Não existe nenhuma referência bíblica ao Dia de Todos os Santos, isto é, nenhuma passagem da Bíblia fala claramente sobre a necessidade de se implementar um dia para celebrar os “heróis da fé”. Mas há passagens em que a Bíblia aconselha os cristãos a evitar rituais que os coloquem em contato direto com os mortos. “Como é que o certo pode ter alguma coisa a ver com o errado? Como é que a luz e a escuridão podem viver juntas? Como podem Cristo e o Diabo estar de acordo? O que é que um cristão e um descrente têm em comum?”, pode ler-se no livro de Coríntios.

Texto publicado por Marta Leite Ferreira em Observador.

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