A Boa Morte e a origem do Dia das Bruxas

De uns anos pra cá, a popularidade do Dia das Bruxas, ou Halloween, tem crescido no Brasil. Embora não faça parte do calendário de tradições brasileiras, a temática sombria atrai a atenção de crianças e jovens mais interessados nos doces e festas do que nas origens e significados da comemoração.

Separamos um texto escrito por Sarah Chavez, Diretora Executiva da The Order of the Good Death, para esclarecer as origens do Dia das Bruxas e entendermos como a nossa relação com a morte muda durante esse período.

Entre caveiras e  tumbas

Muitos norte-americanos têm uma estranha relação com a morte. Amamos  dedicar horas de nossas vidas para matar outras pessoas e, consequentemente, morrermos em videogames, assistir a programas como The Walking Dead , American Horror Story e Game of Thrones. Até mesmo nosso costume cultural universal mais conhecido, o Halloween, celebra a morte. Criamos cemitérios em nossos gramados, penduramos esqueletos pela casa e comemos biscoitos no formato de dedos decepados.

Apesar disso, falar de morte e de morrer fora desses limites é estranho. Nos cercamos de ilusões de “morte” e, ainda assim, sentimo-nos dolorosamente desconfortáveis ao falar dela, de tristeza e perda reais. Talvez seja precisamente por isso que amamos tanto o Halloween, pois ele permite um lugar e um tempo aceitáveis para explorar e saciar um pouco de nossa curiosidade e medo em torno da morte.

Houve uma época em que esse feriado estava intimamente ligado a um dia em que estávamos ativamente envolvidos com a morte; e enfrentar nossa própria mortalidade estava no centro da celebração.

Muitas culturas, crenças religiosas e eventos históricos diferentes ao longo dos séculos contribuíram para as tradições do Halloween. Os mais notáveis são o festival romano de Pomona, com a igreja criando o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados, e o festival celta de Samhain.

Os Celtas, os Druidas  e o fogo

O Samhain, que significa ‘fim do verão’ em gaélico, começava ao pôr do sol em 31 de Outubro. Era uma combinação de celebração da colheita e festa de Réveillon, que poderia durar três dias. Com a aproximação do Inverno, vinham as preocupações muito reais de sobrevivência e morte, já que muitos não viveriam para ver a Primavera.

Durante o dia, era hora de realizar a colheita, matar animais que não seriam mantidos no inverno e de realizar julgamentos legais. Acreditava-se que os condenados por crimes particularmente abomináveis eram sacrificados nessa época.

Um dos rituais mais importantes era a extinção da fogueira na véspera do Samhain. Os Druidas, os sacerdotes celtas, criavam um fogo ritualístico conhecido como “fogo essencial”. Uma vez que o fogo era abençoado pelos Druidas, uma parte das brasas era distribuída para reacender a lareira das casas no próximo ano. Mais tarde, as fogueiras foram transportadas para as festividades de All Souls (Todas as Almas), servindo como uma luz guia para as almas do Purgatório, que se acreditava que voltariam para suas casas ancestrais para passar a noite.

No Samhain, assim como nossos festivais modernos, eram comuns as festas e bebidas. Outro elemento-chave era a narração de histórias. Existem inúmeros contos folclóricos que se acredita serem deste período e que ocorrem no Samhain. Neles estão mortos-vivos, gigantes exigindo a entrega de colheitas e filhos, e as sinistras fadas sidhe, que viviam embaixo das colinas.

Aqui também se originou a tradição do Jack O ’Lantern, avô das famosas abóboras iluminadas do Halloween. No conto popular irlandês,  Stingy Jack engana o diabo em uma série de negociações ruins. No final, entretanto, é Jack quem é enganado e forçado a vagar pela terra carregando um pedaço de carvão das fogueiras do Inferno aninhado dentro de um nabo esculpido para iluminar seu caminho.

Gostosuras ou travessuras

Embora seja amplamente aceito que os celtas usavam máscaras ou fantasias para enganar ou afastar os espíritos malignos, a maioria dos historiadores refuta essa afirmação.

Os celtas acreditavam que o véu que separava o mundo dos vivos e dos mortos desaparecia no Samhain, fornecendo não apenas um caminho para o nosso mundo para os espíritos dos mortos, mas também para os sidhe, os seres que vivem embaixo das colinas. De acordo com as lendas, eles poderiam roubar crianças ou pregar peças cruéis em humanos e animais.

Essa pode ser a origem do ‘gostosuras e travessuras’ e do costume de usar fantasias no Dia das Bruxas. Durante o Samhaim, deixava-se comida para os mortos ou derramava-se bebidas em seus túmulos. Nos anos posteriores, especialmente como parte do Dia de Finados, pequenos bolos chamados bolos de alma, eram dados aos pobres, que tomariam um em troca de orar pelos mortos.

Alô, é do Além?

A maioria das tradições que se originaram entre os celtas e influenciaram as regiões que eles habitavam, era centrada na morte. Como os espíritos dos mortos estavam por perto durante este período, era o momento ideal para chamá-los a responder perguntas sobre o futuro.

Árvores de nozes e oleaginosas tinham um papel importante na mitologia celta e podem ter sido incorporadas ao Samhain. Era comum o uso de nozes e vagens para adivinhação e como oferenda deixada em túmulos. As nozes eram jogadas no fogo e, de acordo com seu “comportamento” – inflamar rapidamente, explodir ou permanecer inalterada – predizia-se qualquer coisa, desde o temperamento de um futuro cônjuge até quem morreria dentro de um ano.

Também durante essas visões, acreditava-se que as aparições de pessoas ainda vivas era sinal de que elas morreriam em um ano. Solteiros esperavam ver seu futuro namorado, mas sempre havia o risco de ver seu próprio cadáver passando lentamente por eles – um presságio de sua morte iminente. Colocavam-se pedras no fogo, recolhendo-as assim que ele apagasse. Se alguém não encontrasse sua pedra, era sinal de que logo morreria.

A pesca era uma atividade arriscada nessa época, pois se acreditava que os cadáveres daqueles que morreram no mar voltariam à vida e subiriam nos barcos, na esperança de serem levados de volta à terra para um enterro adequado.

Na Bretanha, França, onde a morte já havia sido incorporada à maioria dos aspectos da vida e seus cemitérios serviam como o centro da comunidade, as pessoas acreditavam que os cadáveres se levantavam de seus túmulos durante a noite de Samhain, seus esqueletos enchendo os bancos para ouvir o sermão da Morte.

Enterrando as tradições

Com o passar do tempo e graças aos esforços da igreja para erradicar as “práticas pagãs” não apenas na Europa, mas em outras nações colonizadas, muitas dessas tradições viraram lenda.

Então, como a América passou a adotar tantas tradições do Samhain? A resposta está em uma única figura influente que também é responsável por popularizar nossas tradições de Natal, moda e etiqueta do luto e até mesmo costumes de casamento – a Rainha Vitória.

A autora e historiadora do Halloween, Lisa Morton, afirma: “Na América, o influxo de imigrantes irlandeses-escoceses coincidiu com a ascensão da classe média, que estava ansiosa para imitar seus primos britânicos. A própria Victoria passou o Halloween no Castelo de Balmoral, na Escócia, e sua experiência lá foi amplamente divulgada. ”

O Samhain continua a ser reconhecido e celebrado até hoje pelos neopagãos. Algumas tradições incluem fogueiras, elementos de adivinhação e rituais que envolvem honrar os mortos. Uma delas é uma ceia muda – uma festa realizada em silêncio que permite a comunhão e a homenagem aos mortos.

Tal como acontece com outras práticas culturais que homenagearam a morte e os mortos, (como o Dia de Muertos do México ou o Hanal Pixan maia, que a igreja também tentou apagar), é evidente que a relação dos celtas com sua própria mortalidade e seus mortos era de imensa importância para eles.

Durante o Samhain, reivindicamos não apenas essa prática de honrar nossos ancestrais, mas a nós mesmos – enfrentando nosso medo da morte para que possamos realmente viver.

O Halloween no Brasil

É notável que a popularização do Halloween no Brasil começou em escolas de idiomas e até do ensino básico, que valorizavam mais o costume enlatado do que o made in Brasil. Mas por que será que muitos brasileiros preferem celebrar o Halloween ao invés do Saci?

De acordo com Alexandre Ganan Figueiredo, historiador e pesquisador de pós-doutorado pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, o culpado é o soft power. Criado pelo teórico estrategista de relações internacionais Joseph Nye, o soft power ou “poder brando” diz respeito à ‘capacidade de um país ter influência direta em outros por meio de sua cultura, sua capacidade de se projetar como exemplo para o mundo’. No caso dos EUA, os filmes de Hollywood e as séries de TV que chegaram por aqui após a Segunda Guerra Mundial, junto com a televisão, ajudaram a disseminar essa cultura.

Figueiredo também vê a busca do ideal americano de vida, o American way of life, como responsável pela celebração do Halloween no País. “O Dia das Bruxas não possui relação com as tradições e a formação cultural brasileiras, por isso não é usual”, conclui.

Agora sim, o Saci!

Saci-Pererê

Para reforçar que não há ligações  entre o Halloween e a cultura brasileira, em 2003, apresentou-se um projeto de lei para que, no dia 31 de outubro, fosse celebrado no Brasil o Dia do Saci. Em 2004, a data foi oficializada no Estado de São Paulo e, em 2010, no País.

Bruno Baronetti, pesquisador e doutorando em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, explica um pouco sobre o menino peralta.

“O Saci é um jovem negro, com seu cachimbo, um elemento indígena. Além disso, traz elementos da cultura árabe, que dominou, durante séculos, a Península Ibérica”, explica o historiador. Esses elementos manifestam-se na lenda do menino que pode ser preso em uma garrafa e conceder desejos (alô, Gênio da Lâmpada!).

Algumas cidades do Brasil, sobretudo nos municípios de São Paulo, começaram a fazer festas para essas lendas do folclore nacional no dia 31 de outubro. “Em São Luís do Paraitinga, no Vale do Paraíba, temos a Sociedade dos Observadores de Saci, que todo ano promove a Festa do Saci”, conta Baronetti.

Desde o início do século 20, os estudos folclóricos no Brasil, por meio do Movimento Folclórico Brasileiro, e grandes estudiosos, como Mário de Andrade e Edison Carneiro, buscam a inserção desses temas nas escolas. “O Dia do Saci tem o papel de estímulo, de resgate da nossa cultura, e é justamente um contraponto a esse projeto colonizador e imperialista que busca inserir aqui elementos alheios à nossa cultura.”

Bruno ressalta que a ideia não é acabar com o Halloween, mas criar um contraponto para que as crianças, além da tradição estrangeira, passem a ter contato também com tradições e culturas nacionais. É como dizia Plínio Marcos, dramaturgo brasileiro, “um povo que não ama e preserva as suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre”.

Adaptação de conteúdo publicado no blog The Order of the Good Death. Leia o original, em inglês, aqui.

Halloween no Brasil foi adaptado de conteúdo do Jornal USP, que pode ser acessado aqui.

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