Famortos: Mário Quintana

Grite poesia! Hoje, 20 de Outubro, é Dia do Poeta. Para comemorar, vamos analisar a visão da morte em dois poemas de Mario Quintana

“Terra, um dia comerás meus olhos.” Foi com essa frase que o gaúcho Mário Quintana (1906-1994) ganhou meu coração. Pertencente à segunda geração do modernismo, é um dos mais importantes poetas brasileiros. Seus poemas possuem linguagem simples, mas extremamente poética e reveladora dos sentimentos humanos.

De vida muito simples, o escritor viveu entre 1968 e 1980 em um quarto de hotel, local hoje transformado em um centro de cultura que leva seu nome. Sem ter nunca se casado ou tido filhos, faleceu em Porto Alegre, em 5 de maio de 1994.

Nascer, crescer e morrer

Ainda que deixar de existir seja algo tão natural quanto existir, a morte é um tabu na sociedade ocidental contemporânea. Nos dizemos programados para nascer, crescer e morrer, mas percebemos a  morte como um evento inesperado e injusto.

Por não falarmos da morte em nosso cotidiano, o óbito não é visto como uma vida que chegou naturalmente ao fim, mas com tristeza e sofrimento pelo fim da vivência. Contudo, Mário Quintana, no livro A rua dos cataventos (1940), nos trouxe uma visão singular da morte, enxergando-a como amiga e não como um esqueleto.

Vamos analisar os poemas “Minha morte nasceu”, publicado no livro A rua dos cataventos (1940), e “Surpresas”, do livro Esconderijos do tempo (1980).

Minha morte nasceu

Minha morte nasceu quando eu nasci.

Despertou, balbuciou, cresceu comigo…

E dançamos de roda ao luar amigo

Na pequenina rua em que vivi.

Já não tem mais aquele jeito antigo

De rir e que, ai de mim, também perdi!

Mas inda agora a estou sentindo aqui,

Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és a minha doce prometida,

Nem sei quando serão as nossas bodas,

Se hoje mesmo… ou no fim de longa vida…

E as horas lá se vão, loucas ou tristes…

Mas é tão bom, em meio às horas todas,

Pensar em ti… saber que tu existes!

No poema, Quintana rompe com a expectativa pessimista e dramática vinculada à figura da morte e a descreve como uma amiga, que compartilha junto a si todos os momentos da vida, dado que nossa morte nasce assim que nascemos.

No terceiro verso, Quintana descreve uma cena “de roda”, associada à ingenuidade das crianças. No quarto verso, é descrito o espaço desse divertimento: “a pequenina rua em que vivi”, reafirmando a imagem simples propagada por crianças brincando.

Na segunda estrofe, o autor evoca um presente, demonstrando que a primeira estrofe revelava um passado, uma lembrança. Quintana afirma que a morte “já não tem mais aquele jeito antigo/de rir”, evidenciando que já se passaram muitos anos desde essa memória infantil recuperada na estrofe anterior. Contudo, apesar de as épocas terem mudado, ele diz que continua sentindo-a junto dele, “grave e boa”, escutando suas reflexões.

O autor recupera, na terceira estrofe, a ideia de “prometida”, associada à concepção cristã de ter sido preparada uma pessoa para cada ser humano do mundo. Dessa forma, o autor associa o momento exato da sua morte ao momento de encontro entre a sua prometida, a morte, e ele mesmo.

A quarta estrofe do soneto traz o ápice do poema, em que o autor demonstra tamanho afeto pela morte a ponto de sentir felicidade por sua existência. O que nos leva a viver a vida bem, buscando conquistar a felicidade, é a certeza da morte.

Surpresas

Sabes? Os cabelos da morte são entrelaçados de flores,

Não de flores mortas como essas inertes sempre-vivas,

Mas inquietas e misteriosas como os não desfolhados malmequeres.

Ou bravias como as pequenas rosas-silvestres.

As mãos da morte, as suas mãos não têm anéis,

Sua virgem nudez não comporta o peso de uma joia,

Os seus olhos não são, não são uns covis de treva,

Mas cheios de luz como os olhos do primeiro amor.

Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar,

Porque a morte não é, não é um sono eterno:

Tu vais adormecer como num berço, pouco a pouco,

E acordarás de súbito num vasto leito de noivado!

A intenção de “Surpresas” é novamente descontruir a ideia medieval da morte como uma caveira, de olhos fundos, vestida com uma túnica preta e segurando uma foice. Talvez esta seja a motivação do título, uma vez que é uma surpresa deparar-se com a figura da morte do modo descrito por Quintana.

Na primeira estrofe, o poeta escreve sobre os cabelos da morte, indicando que há neles flores, mas não flores mortas, como as sempre-vivas, mas flores inquietas e misteriosas como os malmequeres. As sempre-vivas são espécies que, depois de colhidas e secas, conseguem resistir consideravelmente ao tempo sem se estragar ou perder sua cor. Desse modo, o autor não deseja comparar a morte a um ser morto mas, sim, aos malmequeres, misteriosos e belos.

O segundo elemento a ser modificado é a mão “virgem” da morte, caracterizando pureza e bondade. E o terceiro elemento, os olhos, é descrito como “cheios de luz como os olhos do primeiro amor”, carregando uma semântica intensamente romântica e evocando todas as possíveis intertextualidades que esse olhar dispõe. O autor enxerga a doçura desse olhar na morte.

Na quarta estrofe, Quintana deseja contrariar a noção de sono eterno, afirmando que o adormecimento se dará pouco a pouco, aludindo à ideia de que se morre um pouco todos os dias, mas que se acordará, não numa vida eterna como na perspectiva cristã, mas num leito de noivado, compactuando com “as bodas” descritas em “Minha morte nasceu”.

Celebre a vida

Ao ler os poemas de Mário Quintana, sente-se uma conformidade, uma esperança e até alegria por existir algo que controle e impulsione a vivência todos os dias, pela certeza de consumação desta vida um dia.

Compreende-se que a morte é necessária para impulsionamento da vida e que a visão arraigada da morte que se tem é resultado de uma figura medieval e disseminada por séculos através da sociedade, da educação e da família que omitem discussões acerca da temática, mesmo compreendendo que ela é inevitável.

Desta forma, percebe-se que, para que haja uma melhor aceitação da morte, é necessário conhecê-la, uma vez que a incompreensão e o desconhecimento de algo nos leva ao medo. Logo, deve-se falar sobre ela de forma natural, possibilitando um amadurecimento e criticidade quanto à temática, não mais omitindo-a.

Para ver outros poemas de Mario Quintana sobre a morte, clique aqui.

Fonte: Educação Pública

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: