Famortos: Raul Seixas

Com uma trajetória de rebeldia e originalidade, além de mais de 30 discos (sendo 15 álbuns de estúdios e várias compilações), talvez Raul não precise de apresentações.

Debochado e rebelde, o roqueiro também tinha um lado suave e, em Canto para a minha Morte do álbum ‘Há 10 Mil Anos Atrás’, de 1976. Faixa 1 do Lado A, a canção é um tango a lá Piazzola, que começa com uma parte declamada com um discurso sobre a morte, que “representa um irrecusável apelo à vida”, no melhor estilo de Albert Camus. Nesta canção, Raul apresenta uma filiação ao mito da alma gêmea, afirma que talvez a morte seja o grande segredo da vida e “apresenta um elemento de imprevisibilidade que irrompe como uma perturbação sobre a ‘normalidade’ do quotidiano.”

Canto para a minha morte

Eu sei que determinada rua que eu já passei

Não tornará a ouvir o som dos meus passos

Tem uma revista que eu guardo há muitos anos

E que nunca mais eu vou abrir.

Cada vez que eu me despeço de uma pessoa

Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez

A morte, surda, caminha ao meu lado

E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Com que rosto ela virá?

Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?

Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?

Na música que eu deixei para compor amanhã?

Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?

Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,

E que está em algum lugar me esperando

Embora eu ainda não a conheça?

Vou te encontrar vestida de cetim

Pois em qualquer lugar esperas só por mim

E no teu beijo provar o gosto estranho

Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar

Vem, mas demore a chegar

Eu te detesto e amo morte, morte, morte

Que talvez seja o segredo desta vida

Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Qual será a forma da minha morte?

Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida

Existem tantas

Um acidente de carro

O coração que se recusa abater no próximo minuto

A anestesia mal aplicada

A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida

O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe

Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio

Oh morte, tu que és tão forte

Que matas o gato, o rato e o homem

Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar

Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva

E que a erva alimente outro homem como eu

Porque eu continuarei neste homem

Nos meus filhos, na palavra rude

Que eu disse para alguém que não gostava

E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite

Vou te encontrar vestida de cetim,

Pois em qualquer lugar esperas só por mim

E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo

Mas tenho que encontrar

Vem, mas demore a chegar

Eu te detesto e amo morte, morte, morte

Que talvez seja o segredo desta vida

Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

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