Falando de morte com as crianças

Falar de morte e luto com crianças pode ser difícil mas é extremamente necessário. Especialistas nos dão dicas de como fazer isso.

Acabei de ler o Verdades do Além Túmulo, da Caitlin Doughty. No livro ela responde perguntas de crianças sobre a morte de forma madura e engraçada. E é cada pergunta boa!

É claro que essa curiosidade nos traz dúvida: devemos ou não falar de morte com os pequenos? É compreensível que se queira poupar as crianças de sentimento de tristeza e dor, mas de acordo com educadores e psicólogos, devemos abordar o tema da forma mais natural possível.

Para Isabela Hispagnol, doutora em Psicologia Clínica pelo Laboratório de Estudos sobre o Luto (LELu) da PUC-SP, essa aproximação deve ocorrer antes que alguém próximo faleça. “Esperar a criança perder para ensinar a ela sobre perda é como agir só na crise. Os adultos ficam desconfortáveis, mas ela deve entrar em contato gradualmente com o ciclo da vida”, explica. 

Se a morte não é repentina, como a de alguém que passa um longo período gravemente doente, por exemplo, o ideal é preparar o terreno para a possibilidade do falecimento. “Dentro da linguagem dela, é bom explicar que a doença é complicada, que a pessoa pode não voltar do hospital, e conversar com ela sobre o que está acontecendo e quais são seus sentimentos”, ensina Marilia Zendron, Psico-Oncologista da Clinonco, especialista em teoria, pesquisa e intervenção em luto.

De acordo com Isabela, usar historinhas mas sem maquiar a dor do protagonista pela morte de um parente ou animalzinho  é uma das formas de abordar o assunto. “Isso não leva ao sofrimento, mas sim ao desenvolvimento de resiliência na criança para que ela lide melhor com o sofrimento que ocorrerá diante de uma perda realmente significativa”, completa. 

Para cada fase uma explicação

Para o psicanalista Alexandre Pedro há três itens em relação à morte que a criança precisa entender: “Tudo que é vivo vai morrer um dia. Quando a pessoa morre, não volta mais. Depois que morre, a pessoa não sente dor, não corre, não sente medo, não dorme, não pensa, não age mais”, ressalta.  Veja como cada fase interfere na conversa:

* De zero a dois anos: A criança ainda não fala e por isso o conceito de morte não existe. Nessa fase a criança sentirá muitas coisas, mas não conseguirá nomear e compreender do que se trata. E o lúdico será uma grande ferramenta nesse processo. Crianças até 3 anos não conseguem perceber claramente isso, mas entendem que não brincarão mais com a tia ou que o avô não a buscará mais na escola.

* De três a cinco anos: A compressão linguística da criança é muito mais concreta e literal. Também não conhecem o conceito de irreversibilidade. É muito comum que a criança pareça compreender que não verá mais aquele ente querido e, em seguida, acredite na sua capacidade de retornar a vida.

* De seis a nove anos: A criança conseguirá relacionar a morte com algo que ela perdeu, como um brinquedo, por exemplo. Ela já compreende a morte como algo definitivo, permanente e inevitável. Já consegue compreender e nomear melhor suas emoções.

* A partir dos 10 anos: A morte já ganha complexidade e abstrações em seu entendimento. As mais velhas percebem que a morte é algo natural, mas precisarão de explicações concretas para entendê-la. Só a partir de 12 anos é que a criança consegue entender completamente todo o processo.

* Na adolescência: O adolescente já possui um nível de maturidade cognitiva que lhe dá capacidade de compreender os fatos de outra forma. Como a criança, o adolescente sempre vai usar seu mundo interno para interpretar e sentir a morte e a vida. O luto pode vir acompanhado de revolta e agressividade, desenvolvendo quadros depressivos.

O que não fazer durante o luto infantil

Nada de se esquivar do assunto. “Não falar sobre a morte com a criança pode provocar uma quebra de confiança na relação dela com o adulto e com isso uma sensação de desesperança e solidão por não ter quem a ajude”, enfatiza a psicóloga Juliana Guimarães.

Também não é recomendável que os adultos associem a morte com o sono. “O melhor é não mentir e nem contar historinhas do tipo: “ele dormiu para sempre”, “descansou”, ou “fez uma longa viagem”. As crianças entendem as frases exatamente como são ditas e isso pode causar confusão na cabecinha delas. Podem achar que a vovó que morreu está apenas dormindo e vai acordar a qualquer momento e chegar em casa, ou que todo mundo que viaja nunca mais volta, ou quando o papai chegar e disser que está cansado, ela vai achar que ele vai dormir e morrer”, explica Alexandre Pedro.

A mentira pode, ainda, provocar fobias. Ela pode começar a ter medo de dormir e não acordar mais. Associar mentira e fantasia como “fulano virou uma estrelinha” pode fazer com que a criança, ao olhar para o céu, acredite que todas as estrelas são pessoas mortas.

Crianças devem ia a funerais?

Embora a decisão de levar ou não a criança ao funeral seja da família, é certo que o velório facilita a percepção da morte. Como explica a Sociedade Brasileira de Pediatria em seu site, durante o funeral a criança pode demonstrar curiosidade com o corpo do ente querido, e fazer perguntas como “que horas ele vai acordar?”

Se os adultos não conseguirem responder no momento, devem abrir espaço para a criança retomar as questões quando se sentirem mais fortalecidos para isso. 

A relação dos adultos com o morrer

Os adultos precisam ser referência para as crianças: acolher, ouvir e dialogar, mas isso não precisa ser blindado do sofrimento. A psicóloga Juliana Guimarães aconselha: “Se em algum momento um adulto se sentir muito indisponível emocionalmente para estar com essa criança é importante pedir ajuda. Eleger outros adultos de confiança da criança que possam dar o suporte naquele momento ou até auxílio profissional caso necessário”.

A perda é sempre traumática para ambos os lados, porém, o diálogo e a superação dessa fase são de fundamental importância para a saúde mental. “Essa é uma fase que precisa ser vivida. A tentativa de ocultar essas emoções ou negar esse fato pode ser ainda mais prejudicial”, conclui o psicanalista Alexandre Pedro.

Ora, a educação para a morte ensina a viver. “Quando podemos explicar para a criança que a perda é parte da vida, estamos trabalhando também a ideia da mudança, que pode trazer coisas boas, e de que, na perda, podemos também encontrar nossas forças”, encerra Isabela.

Fontes: Revista BebêO Estadão;

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