Domingo no cemitério

Teve um dia que meu sobrinho pediu para conhecer o cemitério…

Numa manhã de sábado, enquanto passava pela avenida Dr. Arnaldo em frente ao cemitério do Araçá, em São Paulo, minha irmã trava o seguinte diálogo com meu sobrinho, então com 7 anos:

– Mãe, o que é esse lugar?

 – É um cemitério, Fê.

 – E o que tem lá?

 – É aqui que as pessoas que morrem vão morar. Essas estátuas são as casas delas.

 – Eu nunca fui num cemitério. Você me leva?”

Imagino a cara dela ao escutar isso! Porque essas ‘esquisitices’ são coisas da tia. Mas, numa atitude muito positiva e sem fazer alardes, ela respondeu que, sim, levaria ele conhecer o cemitério.

Quando chegou em casa veio logo me escalando para o passeio. Nem preciso dizer que topei.

Posso entrar?

O domingo estava ensolarado e lá fomos nós. Era visível a animação dele. Antes de entrarmos, resolvi perguntar o que ele achava que ia ver no cemitério. “ Acho que vamos ver ossos. Um homem vai pegar os ossos e mostrar pra gente.” Tá, não era bem isso o que eu esperava… Mas seguimos o baile.

Ele quis saber de tudo: por que tem túmulo grande? E porque esse é pequeno? Por que nesse tem um monte de gente? O que é essa estátua? A gente pode entrar ali?

Disse que em cada uma daquelas ‘casinhas’ havia um pessoa que tinha morrido. Alguns estavam sozinhos, outros com suas famílias para que pudessem ficar juntos pra sempre. Aquela estátua é uma mulher chorando porque sente saudades. E não. A gente não podia entrar.

Ao longo do passeio ele foi se soltando e entendendo que o cemitério é só um lugar. Adorou contar quantas pessoas tinha em cada ‘prédio’, olhar dentro dos túmulos abertos e achar coisas como um vassoura (“acho que uma bruxa mora aqui”) ou uma garrafa de refrigerante (“esse tava com sede”) e descobrir que não há nada para se temer ali.

A atitude positiva da minha irmã de não mostrar o cemitério como algo ruim, proibido ou macabro matou (desculpem o trocadilho) a curiosidade dele sem criar ansiedades e medos desnecessários. Ele aproveitou o passeio como uma criança.

Antes de sairmos perguntei se ele tinha gostado. “Foi legal. Mas eu queria ter visto os ossos”.

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