O som da Morte

De apito asteca a piano húngaro. Escute aqui duas peças que, segundo dizem, são o som da Morte

O que os astecas e os húngaros têm em comum? De acordo com pesquisadores, ambos contribuíram para a trilha sonora da morte. Seja por questões rituais ou de coração partido, a música mostra-se influente na relação do ser humano com a morte.

A música é capaz de despertar sentimentos e reviver lembranças. É um universo de significados, representações e percepções distintas, que atinge cada pessoa de forma diferente. Esse tipo de arte aciona diversas áreas do cérebro humano, podendo ainda induzir atos, pensamentos e emoções, como ocorre com a música religiosa, romântica ou poperô.

E o vento levou…

Cidade do México, 1999. Durante uma escavação nas ruínas de 650 anos do templo Ehécatl, o  deus do vento, cientistas encontraram um objeto em forma de crânio preso aos ossos dos dedos de uma vítima de sacrifício. A localização sugeria que o apito teria a função de evocar o barulho do vento uivando. E estavam certos.

Tratava-se do ehecachichtli, o chamado “apito da morte”, criado pelos astecas (cultura mesoamericana que viveu no México entre 1300 d.C. e 1521 d.C.). O pequeno objeto era uma das ferramentas de batalha usadas por essa civilização.

De acordo com o History Channel, os astecas eram tradicionalmente uma civilização guerreira e “desenvolveram métodos estranhos para vencer o inimigo”. Neste caso, podemos incluir o “ataque psicológico”, que era obtido justamente por meio do tal apito.

O engenheiro mecânico Roberto Velásquez ficou conhecido por estudar esses instrumentos incomuns. Segundo ele, os apitos podem ter sido utilizados em sacrifícios, talvez para guiar a alma para o além, ou para a guerra, já que o som de milhares desses apitos juntos certamente poderia fazer com que os inimigos recuassem. Outros especialistas acreditam que o instrumento pré-colombiano era utilizado para colocar o cérebro humano em um estado onírico, e assim, tratar determinadas doenças.

Os pesquisadores explicam que, além de servir para a guerra, o Ehecachichtli era usado em rituais funerários, como uma forma de acompanhar o defunto em sua jornada para a terra dos mortos. Escuta só:

Domingo sinistro

Hungria, 1933. O pianista Rezso Seress compõe a Vége a Világnak (o mundo acabou, em português), uma peça que fala sobre o desgosto de um homem abandonado pela mulher que ama e que pensa em se matar.

Mas parece que a canção era muito forte e a letra foi repensada: a melodia passou a acompanhar um poema de Lászlo Jávor chamado Szomorú Vsárnap, ou “domingo sombrio”. Foi esta a versão que veio a público em 1935, na voz de Pal Kalmar a cantar “num triste domingo com centenas de flores brancas, eu estava à tua espera, minha querida, com uma oração”. Gótico…

O problema é que, na mesma época em que a música foi lançada, a Time noticiou uma onda de suicídios na Hungria relacionados com “Gloomy Sunday”, como ficou conhecida. Começou com um sapateiro, Joseph Keller, que a polícia teria encontrado morto junto a um bilhete com versos da canção. Depois, no rio Danúbio, vários corpos teriam sido vistos boiando com a partitura da música nas mãos.

Ainda na década de trinta, a música chega aos Estados Unidos e provoca a mesma reação. Nesta altura, a canção já era conhecida como “canção húngara do suicídio”, e tornou-se mais famosa quando a estrela do jazz Billie Holiday a gravou. A partir daí, 19 suicídios teriam acontecido depois de as vítimas terem ouvido “Gloomy Sunday”. A BBC decidiu, então, tomar medidas extremas: a “canção húngara do suicídio” passou a ser proibida na programação. A censura durou de 1941 até 2002.

O próprio Rezso Seress enforcou-se com um arame em 1968, depois de ter tentado o suicídio atirando-se de uma janela. Nesse ano, o cantor escolhido para interpretar “Gloomy Sunday” perdeu a voz depois de uma operação na garganta. Seria coincidência? Em 2008, dois investigadores americanos lançaram um artigo sobre o assunto na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. Nele escreveram que não descobriram uma relação de causa-consequência entre a música e os suicídios, nem conseguiram dados suficientes para averiguar se tinha havido um aumento no número de casos nos anos 30. Mas fazem uma ressalva: caso o número de pessoas que se mataram tenha aumentado nesse período, era mais provável que tenha sido devido ao momento que a Europa vivia – com a ascensão do nazismo.

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