Memento mori: Lembre-se da morte

Em latim Memento mori  significa algo como “lembre-se de que você é mortal”, “lembre-se de que você vai morrer” ou, literalmente, “lembre-se da morte”. Mas essa expressão nada tem de mórbida.

Na verdade, ela nos convida a pensar sobre nosso modo de viver, a valorizar mais a vida e focar no que devemos e desejamos fazer, nos preparando para quando a morte chegar.

Acredita-se que a expressão tenha surgido na Roma Antiga, onde desfiles de gala eram realizados para saudar os generais vitoriosos recém-chegados do campo de batalha.

Nessas cerimônias um servo tinha como única função ficar atrás do general dizendo “Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori!”  (“Olhe para trás. Lembre-se de que você é mortal. Lembre-se de que você deve morrer!”).

Esta expressão era, ainda, a saudação utilizada pelos Eremitas de Santo Paulo da França (1620 — 1633), também conhecidos como “Irmãos da Morte”. Eles visitavam os pobres, os enfermos e os prisioneiros, atendiam aos condenados à morte e enterravam os mortos.

Todas as obras memento mori são produtos da arte cristã. Os anéis memento mori foram manufaturados a partir do fim do século XVI e durante o século XVII.

Em outras culturas e práticas, memento mori permaneceu sendo um convite à reflexão, inspirando artes e estilos de vida diversos.

Filosofia ocidental antiga

O Fédon de Platão, onde a morte de Sócrates é recontada, introduz a ideia da prática apropriada da filosofia como “sobre nada além de estar morrendo e morrer”.

Memento mori é também um conceito fundamental do estoicismo, que trata a morte como algo natural e certo que não deve ser temido, mas sim, discutido. Os estoicos da antiguidade clássica eram conhecidos por seu uso desta disciplina, e as cartas de Séneca estão repletas de injunções à meditação sobre a morte. Séneca diz:

“Muitos homens se apegam e agarraram-se à vida, assim como aqueles que são levados por uma correnteza e se apegam e agarram-se a pedras afiadas. A maioria dos homens mínguam e fluem em miséria entre o medo da morte e as dificuldades da vida; eles não estão dispostos a viver, e ainda não sabem como morrer.”

Marco Aurelio, antigo imperador romano, frequentemente se lembrava de sua morte. “Não aja como se fosse viver dez mil anos. A morte paira sobre você. Enquanto você viver, enquanto estiver em seu poder, seja bom.”

Oriente

No Japão, a influência do zen budismo com a contemplação da morte sobre a cultura indígena pode ser estimada pela seguinte citação, extraída do tratado samurai em ética, o Hagakure:

“O caminho do samurai é, manhã após manhã, a prática da morte, considerando se estará aqui ou lá, imaginando a mais levemente forma de morrer, e entregando a mente firmemente à morte. Ainda que isto possa ser uma coisa muito difícil, se alguém a fizer pode ser feito. Há nada que um deva supor que não possa ser feito.”

A “lembrança da morte” tem sido um tema importante na espiritualidade desde a época do profeta Maomé em Medina. Está baseada no Alcorão, onde há recorrentes injunções a dar atenção ao destino das gerações anteriores. Alguns ṣūfiyyah são chamados “ahl al-qubur” (“povo dos túmulos”), devido à sua prática de frequentar cemitérios a fim de ponderar sobre a mortalidade e a vaidade da vida.

Memento mori na arte, na dança e na literatura

A ideia do memento mori inspirou diversos artistas a criarem esculturas, pinturas e mosaicos que costumavam levar crânios, esqueletos e outros símbolos da morte. Tudo para instigar o espectador a pensar sobre a morte e refletir sobre a sua vida.

Assim, muitas igrejas também optaram por exibir essas artes com o objetivo de lembrar os cristãos de que eles são apenas seres mortais e incentivá-los a se dedicarem à preparação para o encontro com Deus.

Na música, o memento mori foi um gênero de réquiem e funeral comum na Europa antiga. Denominado dança macabra ou dança da morte se tratava de uma peça dramática que destacava a universalidade e inevitabilidade da morte.

Já na literatura, a reflexão sobre a morte também é extensa. Shakespeare, por exemplo, em diversas peças apresentou a temática. Em uma passagem da obra Hamlet, o personagem ergue o crânio do bobo da corte e lamenta o que acontece com todas as pessoas após a morte, até mesmo com as mais vivas e vibrantes: todas são reduzidas a um crânio oco.

Como dito por Lucas Casemiro Brizon, professor de Filosofia, “a morte não está à distância. Está conosco agora. É o ponteiro dos segundos do relógio. É o sol poente. Conforme a flecha do tempo se move, a morte segue, reivindicando cada momento que passou. O que devemos fazer sobre isso? A resposta é: viva! Viva enquanto pode. Não coloque nada fora. Não deixe nada inacabado. Agarre-o enquanto ainda pertence a você.”

Afinal, você vai morrer.

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