O suicídio é a cause da morte. Você concorda?

Uma pessoa que escolhe morrer ainda tem uma história de vida para contar, e seu obituário deve refletir esse equilíbrio

Claire é uma menina que gosta de vinhos, de viagens, corrida e obituários. Tudo o que a vida tem de melhor. Ela também é mora na casa ao lado da minha. Embora eu pudesse ter simplesmente declarado que Claire é minha vizinha, você estaria perdendo alguns dos detalhes essenciais sobre ela que não estão explícitos nesse rótulo. Compartilhar nossa história é mais verdadeiro e, eu diria, mais interessante.

OK, mais sobre Claire. Alguns anos atrás, seu pai, Mike, morreu. Mike era um australiano tagarela que trabalhou durante anos no alto Ártico e sabia algo sobre quase tudo. Embora ele já estivesse doente há um tempo, isso não diminuiu nosso choque e tristeza quando ele morreu. Então, você pode ver pela minha descrição que a vida e a morte de Mike, embora significativa para nós, não foi algo ultrajante ou provocativo. OK, deixei de fora alguns detalhes essenciais aqui também: Mike sabia fazer uma pavlova incrível, caçou focas em um iglu e cometeu suicídio.

Quando chegou a hora de Claire escrever o obituário de seu pai, ela o abordou com a mesma atitude prática. Ela simplesmente declarou que Mike “morreu de depressão”, porque essa foi a doença que o levou à morte. Sem escândalo, sem vergonha, apenas veracidade.

Suicídio é uma merda. Significa que alguém morreu antes do que esperávamos – o pior tipo de surpresa. Mas quando se trata da história de vida de alguém, isso é apenas um final: nada diferente de um natimorto, um tumor ou um acidente. Independentemente do quanto nos enfurecemos, lamentamos, nos afastamos ou negamos, o suicídio pode ser a causa da morte, mas não define a vida. Vivemos uma vida inteira e morremos em um instante. Uma pessoa que escolhe morrer ainda tem uma história de vida para contar, e seu obituário deve refletir esse equilíbrio: todos aqueles anos de vida e, sim, um final. Como o Mike.

Reter detalhes essenciais, como dizer que alguém cometeu suicídio, muda sua história. Não é uma história verdadeira. No entanto, quando você lê sobre Mike, saber que ele escolheu morrer não muda o significado de sua vida. É mais uma nota de rodapé. Quanta liberdade oferecemos – a todos – quando escrevemos a verdade! As pessoas podem se sentir à vontade para compartilhar suas condolências, deixando bolinhos ou relembrando os bons momentos. Muito melhor do que sussurros velados e encontros estranhos. Nossas comunidades podem lidar com isso, eu prometo, as pessoas querem oferecer compaixão.

Quando alguém morre, independentemente da causa, todos gostariam de ter um lembrete sobre a vida que veio antes. Um obituário oferece a chance de trazer os holofotes de volta para as realizações, peculiaridades e a alma que era a pessoa e agora é sua memória. Podemos chamá-los ao palco. Por mais que preferíssemos que o suicídio não fosse o fim da história, isso não significa que não seja uma boa história.

Adaptação de conteúdo publicado no blog The Order of the Good Death. Leia o original, em inglês, aqui.

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