O que a Boa Morte (death positive) NÃO É

Após ver seu tuíte gerar uma discussão saudável (ok, às vezes nem tanto), sobre o termo death positive, que chamaremos de boa morte, Caitlin Doughty resolveu esclarecer alguns mal entendidos sobre o que isso NÃO significa.

Quando postou pela primeira vez, em 2013, sobre a importância de se ter um movimento que colocasse as discussões sobre a morte num lugar tão comum quanto aquelas sobre aceitação corporal e sexual, Caitlin se deparou com alguns equívocos sobre o propósito e os valores do movimento.

Ao invés de ser visto como um movimento de “consciência da morte” e “aceitação da morte”, termos usados desde os anos 1970, por acadêmicos e profissionais que discutiam o assunto, o death positive foi entendido quase como um estereótipo da Mortícia Addams.

E para deixar tudo mais fácil, Doughty separou os principais mitos sobre a Boa Morte e explicou tudo tim-tim por tim-tim.

Mito um:

O movimento é impulsionado por pessoas que compartilham suas hashtags e moda gótica no Instagram.

Em primeiro lugar, se você está insinuando que uma pessoa que se veste de forma mais obscura e alternativa é menos séria como intelectual ou defensora de causa, reveja seus conceitos.

Spoiler alert: Muitas das pessoas que usam ‘muito preto para seu gosto’ são enfermeiras, advogados, arqueólogos, professores… Como diz a diretora da Order of the Good Death Sarah Chavez, essa linha de pensamento é uma maneira conveniente de “dispensar e diminuir as vozes das mulheres no movimento rotulando-as de ‘góticas’ ”.

A outra hipótese é que a boa morte é um movimento de ‘ativismo de sofá’ (slacktavism) , que não busca mudanças no mundo real e se limita a xingar muito no Twitter. Muito pelo contrário! A boa morte coloca as necessidades da família e do cadáver em primeiro lugar. Isso significa lutar por mudanças reais nos níveis legislativo e regulatório, bem como nas indústrias funerária e de cuidados paliativos.

Também existem milhares de pessoas que não trabalham na indústria funerária, mas educam e fazem escolhas em nível local que remodelam essa indústria. A força do movimento está em sua diversidade, e você é bem-vindo, não importa como se vista ou se identifique. Temos muito trabalho a fazer para mudar a forma como a morte é controlada e regulamentada – venha com seu entusiasmo e habilidades, e venha como você é.

Mito dois:

O movimento coloca o ideal da “boa morte” num pedestal, ignorando os muitos que sofrem mortes ruins.

Sim, a organização se chama A Ordem da Boa Morte e encoraja a discussão sobre como alcançar a boa morte. Mas grande parte dessa discussão é sobre a desigualdade estrutural que torna mais difícil para certos grupos obterem a morte ou o funeral que desejam. Nem todas as mortes são criadas iguais. Reconhecer isso abertamente nos permite colocar nosso foco nesta realidade e trabalhar para mudá-la.

Uma “boa morte” é pessoal. Minha boa morte pode não se parecer em nada com a sua boa morte. Não há falhas, apenas a tentativa humana atemporal de deixar este mundo em seus próprios termos.

É por isso que existe tanta gente escrevendo, defendendo e falando sobre os direitos trans na morte, as taxas de mortalidade de mães negras, os funerais difíceis para famílias de baixa renda, os obstáculos impossíveis criados por morrer como um imigrante.

Devemos permitir que as comunidades definam o que uma “boa morte” significa para elas, as barreiras reais que existem para realizar uma boa morte, e examinar essas barreiras. Essa descoberta é uma parte fundamental do movimento de boa morte.

Mito três:

Não posso ter medo de morrer ou estar no meio da tristeza e ainda ser de boa com a morte.

Se alguém me diz que não tem um pingo de medo da morte, eu não acredito. A morte é confusa e complicada, e nosso relacionamento com ela está sempre mudando.

A boa morte não é ter uma mentalidade de culto, em que se você obtiver pontos positivos suficientes, receberá a caveira de ouro da aceitação da morte. É apenas aceitar o processo de viver como um humano perecível.

Não há hierarquia de emoções. Uma pessoa pode sentir-se no controle total de seus medos num dia, perder um amigo ou parente no dia seguinte e surtar por um tempo. E tudo bem. A morte contém multidões, assim como os humanos e as emoções contêm multidões. Somos feitos de camadas, lembra do Burro do Shrek?

Esses mitos não estão intencionalmente deturpando a boa morte para seu próprio ganho. É que, de alguma forma, esse ainda é um assunto delicado e precisamos torna-lo mais acessível e leve.

Há muito trabalho a se fazer e muita informação a se buscar, mas acredito que esse diálogo pode ter grande impacto nas vidas e mortes das pessoas.

Esta é uma adaptação de um post da Order of the Good Death. Você pode acessar o conteúdo original aqui.

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